13º Encontro Nacional de Fé e Política: quando a esperança se organiza para defender a democracia
- há 3 dias
- 3 min de leitura
Por Luciane Udovic, presidenta da Associação Grito dos Excluídos Continental
Há momentos na história em que não basta apenas resistir — é preciso se reencontrar, se reconhecer e se reorganizar. O 13º Encontro Nacional de Fé e Política, realizado em São Bernardo do Campo, é exatamente um desses momentos. Um marco coletivo que reafirma que, mesmo diante das ameaças, a democracia segue viva onde há povo organizado, fé comprometida e luta por justiça.
Não foi simples chegar até aqui. Muitos duvidaram. Alguns tentaram inviabilizar. Mas seguimos — porque somos muitos. E somos mais. O que vivemos nesses dias foi a prova concreta de que a esperança, quando se transforma em ação coletiva, é uma força histórica capaz de mover estruturas e reconstruir caminhos.
O Grito dos Excluídos Continental nasce dessa mesma fonte. Desde 1994, quando ecoou pela primeira vez como denúncia das desigualdades e anúncio de um outro projeto de sociedade, o Grito tem sido um espaço de articulação, mobilização e incidência política. Um movimento que atravessa fronteiras, que conecta territórios e que nunca se afastou da sua missão: lutar por trabalho, justiça e vida.
Estar na construção e realização deste Encontro é, para nós, mais do que uma parceria — é continuidade histórica. É a reafirmação de que fé e política não se separam quando o compromisso é com a dignidade humana. Pelo contrário: se encontram na prática concreta da solidariedade, na defesa dos direitos e na construção de alternativas.
O 13º Encontro não foi apenas um evento. Foi um território vivo de diálogo entre diferentes expressões de fé, movimentos sociais, juventudes, mulheres, povos originários, população negra e lideranças populares de todo o Brasil. Um espaço onde a diversidade não fragmenta — fortalece. Onde as diferenças constroem convergência.
Em um contexto ainda marcado pelo avanço de forças autoritárias, pela disseminação do ódio e pela tentativa de deslegitimar a política como instrumento de transformação, reafirmar a democracia se torna um ato de coragem. E mais do que isso: um ato de responsabilidade histórica.
Aqui, a democracia não é tratada como um conceito abstrato. Ela se expressa na organização popular, na participação social, na incidência política e na construção coletiva de propostas. Ela se materializa na luta por direitos, na defesa dos territórios, na valorização das vozes historicamente silenciadas.
Por isso, o “esperançar” — inspirado na pedagogia de Paulo Freire — não aparece como um discurso vazio. Ele se concretiza na prática. Esperançar é agir. É se comprometer. É construir, mesmo quando tudo parece difícil. É acreditar que outro mundo não só é possível, como já está sendo gestado nas periferias, nos movimentos, nas comunidades de fé e nos territórios em resistência.
Ao longo desses dias, vimos isso acontecer. Na mística que nos conecta à espiritualidade libertadora. Nas mesas que aprofundam o debate político. Nas plenárias que constroem caminhos concretos. Nas expressões culturais que alimentam a alma e fortalecem a identidade do nosso povo.
O Encontro também reafirma algo fundamental: não há democracia sem povo organizado. E não há transformação sem formação política, sem comunicação popular, sem articulação territorial e sem compromisso com as pautas que estruturam as desigualdades no nosso país.
As lutas das mulheres, da população negra, dos povos originários, das juventudes e das trabalhadoras e trabalhadores não são temas secundários — são centrais. São elas que apontam os caminhos para uma sociedade mais justa, inclusiva e verdadeiramente democrática.
Para o Grito dos Excluídos Continental, este momento fortalece ainda mais o nosso compromisso de seguir construindo pontes, articulando redes e incidindo politicamente nos espaços institucionais e nos territórios. Seguiremos promovendo formação, fortalecendo movimentos sociais e ocupando os espaços necessários para garantir direitos e ampliar a democracia.
Saímos deste Encontro com mais do que reflexões. Saímos com responsabilidade. Com tarefas. Com a certeza de que a democracia precisa ser cuidada todos os dias — e que esse cuidado se faz com organização popular, com solidariedade e com coragem.
O 13º Encontro Nacional de Fé e Política não se encerra aqui. Ele continua em cada território, em cada comunidade, em cada iniciativa que se compromete com a vida, com a justiça e com a dignidade humana.
Porque, no fim, é isso que nos move: a convicção de que a esperança não é espera.
É luta. É prática. É construção coletiva.
E nós seguimos.







Comentários