Somos o presente e não o futuro. Bem-vindo Papa Francisco

“A economia de Francisco não é uma utopia porque a estamos construindo agora”


*Por Luiza Udovic Bassegio, Assis, Itália


Este sábado, 24 de setembro de 2022, não poderia ter amanhecido mais iluminado. O céu de Assis era o próprio paraíso. E novamente nós, jovens lutadores, provenientes de mais de 120 países, ocupamos o Teatro Lyrick, em Santa Maria degli Angeli, para dizer cara a cara ao Papa Francisco que SIM: acreditamos na Economia de Francisco e nos comprometemos em seguir construindo este pacto rumo a Terra Prometida.


A mística de Encerramento seguiu sob a inspiração do profeta Isaias. “Vai, seja sentinela noturna. Aquilo que vir, Grite.” É a oração da espera e da esperança durante a noite. A espera de Deus, do amigo, do paraíso da justiça e da paz.


Somos jovens Papa Francisco, alguns ainda completando 18 anos. Para nós hoje é um dia de festa, de alegria, de gratidão. Obrigado Papa Francisco por ter acreditado em nós. Obrigado por ter nos convidado a dar uma alma a Economia. Obrigado por ter nos indicado São Francisco como exemplo e aprendizado para a fraternidade. Obrigado por nos lembrar que somos o presente e não o futuro.


Muito carinho e afeto nas palavras do Papa Francisco. Iniciou saudando os presentes, mas também lembrou de todos aqueles que não puderam chegar ali. O Papa destaca que para muitos de nós, o Encontro com a Economia de Francisco despertou algo que já tínhamos dentro. Já estávamos comprometidos com a criação de uma nova economia. A carta apenas nos aproximou dando um horizonte mais amplo e fez com que nos sentíssemos parte de uma comunidade mundial de jovens com a mesma vocação. Fala ainda da necessidade de retomar a atividade econômica a partir das raízes humanas.


Vocês jovens, diz o Papa, estão vivendo a juventude em uma época que não é fácil. A crise ambiental, a pandemia, a guerras da Ucrania e tantas outras guerras. Não soubemos cuidar do planeta e não estamos salvaguardando a paz. Vocês são chamados a se tornarem artesãos e construtores da Casa Comum. Uma Casa Comum que está desmoronando. Uma nova economia inspirada em Francisco de Assis hoje, pode e deve ser uma economia amiga da terra. Uma economia de paz. Trata-se de transformar uma economia que mata, em uma economia de vida em todas as suas dimensões. Chegar ao Bem Viver. Que não é um doce vida. Mas é aquela mística que os povos originários nos ensinam na relação com a terra. Vocês jovens, são profetas. Os jovens são chamados a serem portadores de um espírito de ciência e inteligência. Quando falta a habilidade dos jovens, toda a sociedade murcha. A vida de todos se apaga. Falta criatividade, otimismo, entusiasmo e falta coragem para arriscar. Uma sociedade, uma economia sem jovens, é triste e pessimista. Mas graças a Deus vocês estão aqui. Não apenas estarão amanhã. Mas já estão aqui hoje. Vocês não são apenas o ainda não. Vocês são o já, o presente.


O Papa afirmou ainda que devemos questionar o modelo de desenvolvimento. Não podemos esperar pela próxima cúpula internacional. A terra está queimando hoje e é hoje que devemos mudar em todos os níveis. Se falamos de transição ecológica, mas permanecemos dentro do paradigma econômica do século 20, que depredou os recursos naturais e a terra, as manobras que adotamos serão sempre insuficientes e doentes nas suas raízes. São Francisco nos ajuda com a sua fraternidade cósmica com todos os seres vivos. O pontífice diz que é necessária uma mudança rápida e decisiva na economia e que conta com a juventude para isso. Lembrou que há uma insustentabilidade de nossas relações. Em muitos países as relações das pessoas estão se empobrecendo, especialmente no ocidente. O consumismo atual procura preencher o vazio das relações humanas com bens cada vez mais sofisticados. A solidão é um grande negócio no nosso tempo. Mas desta forma gera uma fome de felicidade. O primeiro capital de qualquer sociedade deve ser o capital espiritual. É ele que nos dá razões para nos levantarmos todos os dias e gera a alegria de viver que também é necessária para a economia. Os jovens sofrem com esta falta de sentido. A tecnologia ensina o que e como fazer, mas não nos diz o porquê.


Lembra o Papa que estando na cidade de Francisco, não poderia deixar de falar da pobreza. Fazer economia inspirada nele significa comprometer-se em colocar o pobre no centro. Olhar o mundo a partir deles. Sem o pobre não existe economia de Francisco. E esta economia não pode simplesmente trabalhar para ou com os pobres. Enquanto nosso sistema continuar produzindo excluídos seremos cumplices de uma economia que mata. Estamos fazendo o suficiente para mudar esta economia? Recorda que a primeira economia de mercado surgiu na Europa. Ela criava riqueza, mas não despreza a pobreza. O nosso capitalismo cria riqueza, mas não estima os pobres. Não devemos amar a miséria. Pelo contrário, temos que combatê-la. Mas sem valorizar o pobre não se pode combater a miséria.


Por fim, a luz desta reflexão, o Santo Papa nos deixa três indicações para continuar o nosso percurso:


1) olhar o mundo através dos olhos dos mais pobres. Vocês podem melhorar a economia se olhar para as coisas a partir das perspectivas das vítimas e dos descartados. Mas para isso precisa ser amigo dos pobres;

2) Vocês são estudantes, pesquisadores e empreendedores. Mas não se esqueçam do trabalho, dos trabalhadores. Do trabalho das mãos. Sem trabalho digno e bem remunerado as desigualdades aumentam. Criem bens e serviços e trabalho para todos;

3) A terceira indicação é a encarnação. Em momentos cruciais da história, aqueles que conseguiram deixar uma boa impressão foram os que traduziram ideias, desejos e valores, em obras concretas, encarnadas. Vocês mudarão o mundo da economia se junto com o coração e a cabeça, usarem as mãos. Precisamos sentir e fazer aquilo que pensamos. As ideias são necessárias, mas serão armadilhas se não se tornarem concretude no cotidiano. A realidade é sempre superior as ideias.


O Papa encerra sua fala nos agradecendo, nos abençoando e nos mandando seguir em frente com inspiração e intercessão de São Francisco.


E para finalizar mais este momento do processo da Economia de Francisco, o nosso Francisco Papa, assina com os jovens um Pacto onde todos se comprometem a gastar suas vidas para que a economia de hoje e de amanhã se torne uma Economia do Evangelho.




Leiam na sequência a íntegra da Carta:

“Nós jovens, economistas, empreendedores, transformadores sociais de todas as partes do mundo, chamados aqui para Assis, sabendo da responsabilidade de nossa geração, nos empenhamos agora, singularmente, unicamente e todos juntos a doar nossa vida para que a economia de hoje e de amanhã se torne uma Economia do Evangelho.


Uma economia de paz e não de guerra; uma economia que cuida da criação e não a destrói. A serviço da pessoa da família e da vida. Que respeita cada mulher, homem, criança, pessoa idosa e sobretudo os mais frágeis e vulneráveis. Uma economia onde o cuidado substitui o desperdício e a indiferença. Uma economia que não deixa ninguém para trás, para construir uma sociedade na qual as pedras descartadas pela mentalidade dominante se tornem a pedra angular; uma economia que reconhece e protege o trabalho seguro e digno para todos, especialmente para as mulheres; uma economia onde a finança é amiga e aliada da economia real e do trabalho e não contra eles; uma economia que sabe valorizar e preservar as culturas e as tradições dos povos, todas as espécies vivas e os recursos naturais da Terra; uma economia que combate a miséria em todas as suas formas, reduz as desigualdades e sabe dizer, com Jesus e com Francisco, "bem-aventurados os pobres"; uma economia guiada pela ética da pessoa e aberta à transcendência; uma economia que cria riqueza para todos, que gera alegria e não apenas bem-estar, pois a felicidade não compartilhada é muito pouco. Acreditamos nesta economia. Não é uma utopia, porque a estamos construindo agora. E alguns de nós, em manhãs particularmente luminosas, já vislumbramos o início da terra prometida.


Assis, 24 de setembro de 2022.


Economistas, empreendedoras, empreendedores, transformadores, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras”


*Luiza Udovic Bassegio, estudante de RI – delegação gaúcha Grito dos Excluídos Continental e Rede Jubileu Sul Brasil.